sexta-feira, 30 de maio de 2008

Que trata do que se perde numa guerra ganha


Dois tiros...


A cidade está calma, silenciosa;
no ar, o silêncio mata
e por entre ares tóxicos e venenos
soa a sinfonia de dois tiros...


Um pássaro morto jaz no chão
Jaz sem asas e sem bico:
levaram-no os insectos
que sobrevivem na terra estéril de cinza...


Recordações, tantas vidas, tantos sonhos,
agora os incêndios iluminam a cidade
partes de corpos (do que parece) enfeitam as janelas
o rio que corre na rua é vermelho...


Dois tiros...
Uma criança...


A criança olha, em pé, consigo a boneca
e o seu coração está vazio, ferido
e o chão queimado é humedecido
por inocência vermelha que, com Sol, não seca...


Menina, criança, não chores!
A boneca, rota, deu-lha sua mãe
Mas a mãe já não está, não lhe pega ao colo
Qual deles, qual dos vultos do chão seria a sua mãe?


És um cadáver, cidade, estás morta
e contigo morrem os sonhos, esperanças,
queimem-se os vossos telhados de dor e angústia
derrubem-se as paredes sádicas e hipócritas!


Dois tiros...
Uma criança...
Cai a boneca...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Sobre la razón para no llorar


No llores...

Piensa en el cielo
el cielo azul,
el cielo blanco,
el cielo negro de tempestad
que, a pesar de las nubes
no deja de ser cielo de Sol y estrellas...

No llores más...

Piensa en la tierra
la tierra negra,
la tierra roja,
la tierra blanca de arena
donde el mar llega impetuoso y violento
para volver atrás manso como cordero...

No llores más, que me haces doler...

Piensa en el agua
el agua blanca
el agua azul,
el agua verde del mar
donde todo viene y todo parte
donde podrá partir tu tristeza y venir tu alegría...

No llores más, que me haces doler el corazón...

...Pero como puede doler algo que no existe?...
(Lejos van los tiempos
en que los animales hablaban
en que el cielo fue rojo
en que no hube estrellas...
Lejos van los tiempos
en que hube una razón para existir....)
Lejos van los tiempos
en que hube una razón para llorar...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Que compara uma dama


És como uma névoa de cinza
que, cada vez que me aproximo,
mais me mata e sufoca
sem que, no entanto,
eu creia essa morte penosa...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Que (des)associa qualidades


"A palavra é de prata, mas o silêncio é de oiro..."
...

Talvez o silêncio seja uma frase completa
Talvez as palavras sejam expressão sem sentido
...

Talvez o silêncio seja a comunicação perfeita
Talvez as palavras sejam um defeito de linguagem
...

Talvez o silêncio seja a mais forte das palavras
Talvez as palavras sejam ditas em silêncio
...

Talvez o silêncio seja ouvido com o coração
Talvez as palavras sejam lidas com os ouvidos
...

Talvez estas palavras devessem ter sido escritas em silêncio
...

Que recorda tempos passados


Por cada mal da vida, uma ventura
Que o Destino a cada um tem reservada
Mas a primeira a mim está destinada
Mais suas penas de tristeza e de tortura!...

Se para mim restam penas, amargura,
Vejo cada outra sorte ser tomada
Não por mim, de existência magoada,
Mas pelo alheio, que sempre bem figura.

Tenho saudades do tempo em que sorria
Daquele em que tenho a lembrança
Das venturas, boa sorte e alegria:

Ah, quem me dera voltar a esse dia
Essa vida de bem querer e Esperança
Dos dias de ventura em que te via!...

Que trata da saudade


Verdes campos, longos rios, prados floridos
Que em uma tarde amena o Sol doirou
Bem como as lembranças que o longo rio levou
Mais os sonhos que reguei em tempos idos…

Por entre cantares, pássaros adormecidos
O luzir do Sol meu coração curou
Da ausência e da saudade por quem chorou
Em dias remotos, em lugares perdidos…

E, apesar de luzir no céu o Sol brilhante
Sinto assomar em mim a cada instante
Um coração ferido e sempre triste!...

Tivesse eu podido travar tal tormento!
Que o mesmo Sol me tivesse dado alento
No dia em que de meus olhos te partiste!...

Que acusa a crueldade de uma dama


No meio da noite triste e escura
com o disco lunar redondo, brilhante,
esperançoso, quão dúbio amante,
o terno pássaro, em vão, procura...
As horas passam; a noite continua
perdem-se as penas, os olhos, a vida
a ave jazeu, morta, perdida,
no meio da noite triste e escura...
De cálidas mãos para vil criatura
de urtigas feita, que corta e tortura
de lágrimas claras forma mil defeitos:
eis o rosto daquela que augura
que em pobres rimas mata, enclausura,
meus versos perdidos, meus sonhos desfeitos.

Que procura descobrir uma identidade


Passeava eu no areal
E o mar perguntou:
- Quem és?
És ser em movimento
Com o movimento dos tempos
Entre tempos que se repetem
Sem deixar de ser diferentes.
És igual a tantos, és diferente de outros
És criação, és criador
És animal em mutação.
És alegria, és tristeza
És ilha, és continente
És mudança permanente
Num mundo que se mantém.
És só tu e és alguém.
És tudo, és nada
Personagem inventada
Para a história da Vida
Não entendo,
Não compreendo,
Com tantas coisas sendo
Ainda não entendi quem és…
Passeava eu no areal
E o mar perguntou:
- Quem és?
- Eu sou.

Que trata da morte


Hoje é o dia mais feliz da minha vida.
Simplesmente...

Simplesmente o Sol luz sobre mim
com luz doirada e quente
e eu apenas vejo cinza e escuridão
não sinto calor, não sinto frio.
Não sinto, nem vejo, nem oiço...

Hoje é o dia mais feliz da minha vida.
Simplesmente...

Simplesmente não sinto as ervas verdes
nem sinto o aroma das flores
e, por entre nuvens de poeira
e fumos negros asfixiantes
não vejo, nem sinto, nem oiço...

Hoje é o dia mais feliz da minha vida.
Simplesmente...

Simplesmente já não oiço o rio a correr
nem oiço a água agitada da corrente
e, com um rio de sangue rubro e borbulhante
com origem num corpo decomposto e mutilado
não vejo, nem sinto, nem oiço...

Hoje é o dia mais feliz da minha vida.
Simplesmente...

Simplesmente hoje é o dia em que morri.
E basta isso para se tornar
O dia mais feliz da minha vida...

Que trata da descoberta da verdade


Prostrado em largas horas, descontente
Em tempos, contratempos e outros tais
Mantive-me fiel àquela gente
Que se sabe feita de areias e metais…

Naquela de que existe certamente
(incessante pela busca de sinais
E esperando-os em vão ardentemente)
uma vida de flores e de corais

Mantive-me iludido, pensei ser certo;
Firo-me de morte, então liberto
O meu pesado e frio coração!

Olho langue o céu, é tudo incerto
Jorra o sangue negro do peito aberto
O resto é discórdia… e solidão…

Sobre las incapacidades


No puedo mirar
porque solo veo oscuridad;
no puedo sentir
porque se queda el dolor;
no puedo hablar
porque el frío me ha quitado la voz;
no puedo oír
porque solo oigo mi corazón llamar tu nombre
lo que parece imposible
porque no tengo corazón
si no un espacio vacío
en el lugar donde batía
por un rayo de Sol
que ha venido a librarlo de la lluvia
y le diese sentido de existir...

Que responde a mudança como felicidade


No meio do plaino abandonado
Em urros deitei contas à Vida
Às tantas chorei, já estava dorida,
A voz rouca de tanto ter gritado.

Nisto encoberta, clara e difusa
Oiço uma voz do céu que se abria
Vi uma imagem que então descia
E que em altos berros me grita e acusa:

“Desgraçado poeta, por que choras?
Mas não entendes que é esse viver
Que te atraiçoa e te faz sofrer?

Acorda, poeta, por que te demoras?
Muda então, tenta perceber:
Podes ser feliz, é só querer.”

Que recorda uma dama morta


Sinto saudades de vosso sorriso
Mas sei que um dia, senhora, em tarde amena
Vos encontrarei calma, doce, serena,
Abrindo-me as portas do Paraíso…

Mas p’ra meu mal vos haveis apartado
Perdestes do rosto os lábios rosados
Vossos lindo olhos agora fechados
Cabelos sem cor, coração parado.

Não quero a Vida, escolho a Morte!
Não quero ter de viver esta sorte
De ter de aguentar algo tão atroz!

Quero morrer já, ver vosso olhar terno
Serei punido, mas creio o Inferno
Menos doloroso que uma Vida sem vós…

Que recorda o pássaro morto


O pássaro está morto
E, como ele, também eu morro aos poucos
Cada vez que recordo,
Com saudade,
A canção do pássaro morto.

O pássaro está morto
E fui eu que o segurei morto.
Não pode voar para o céu.
É escura, triste e fria
A lápide do pássaro morto.

O pássaro está morto e eu também.
Deito-me debaixo da árvore onde cantou.
As folhas caem da árvore sobre mim
E eu fecho os olhos,
Começo a sonhar…

Enquanto morro eu tenho um sonho:
Nele, as flores têm mais cor
A árvore cobre-se de folhas novas
E, inquieto e feliz na janela,
Ouço cantar o pássaro morto…

Que trata de uma possibilidade


Hoje chove.
Mas talvez não seja apenas a chuva.
Talvez seja o meu coração
Que tomou o tamanho do Universo
E chora cada vez que bate.

Que resume o propósito da existência


Em tempos fui cavaleiro andante
Atravessei florestas densas,
Matei feras e monstros,
Cruzei os mares em navios,
Venci tempestades.
Em tempos fui cavaleiro andante
E pensava salvar
Damas e princesas
Das suas masmorras.
Julguei-as presas.
Mas, agora, eu percebo:
Eu é que estou numa masmorra
E ninguém me salva a mim…

Sobre una triste conclusión


Un día de otoño yo he pensado
Y, al fín, he tomado una decisión:
Yo iria ofrecerte mi corazón
Tan sufrido y de vivir cansado!
Pero, al final, yo he reparado
Que tal yo, inutile, no podría hacer
Pues mi corazón es, para mi dolor
Una piedra vana, dura, sin valor…

La verité s'assemeille aux rêves


Dans la forêt
J’espére le soleil
Que, tous les matins,
Fait d’un petit lac
La Lune d’un jour…

Dans la forêt,
Les arbres dancent
Et les fleurs s’agitent avec le vent
Et je m’endorme…
Et tout semble parfait…

Dans la forêt
Mes ouïs écoutent la chanson des riviéres
Et je rêve…
Et tout semble magique…

Mais rien n’est pas parfait
Et la magie n’existe pas…

Dans la forêt
Les feuilles brillent, trement
Et, avec elles, mes rêves trement aussi
Et, maintenant,
Tout semble parfait et magique
Quand je rêve que no est le soleil
Mais tes yeux que brillent en el ciel…

Et malgré ce rêve n’être pas vrai
Tout semble parfait et magique…

Et tout semble vrai,
Parce que je rêve…

Sobre la vitoria en un reino de dolor


Verte así, muerto, no es sencillo,
Ni siquiera, triste, ese tu estado,
¡Ah, que es quedarse sepultado
Debajo de ún gran castillo!

En caminos llenos de soledad
Yo he encontrado dolor y muerte
Ni siquiera tú has tenido la suerte
De huir de esa cruda voluntad…

Estas paredes escuchan, hablan:
“¡No existen personas que hagan
Estos pobres salir de tristura!...”

¡Ah, cuánta pena de ellas yo tengo!
Pues que así, esperanzado, vengo:
Voy levantarte de tu sepultura…

Sobre el cansacio de vivir



Estoy farto, estoy lleno, estoy cansado
De la forma de cómo levo mi vida
Que, más, a más, para mí es tida
Cómo un grande y doloroso fado…

Estoy farto, estoy lleno de sufrir!
Quiero vivir en paz, así lo espero.
Triste, sólo, lo he tentado, pero
No hay forma de eso sino murir…

Con todo esto yo pierco la calma!
Labaredas llegan hasta mi alma
Y estas queman mi corazón sufrido!...

En el final, lleno de dolor ardiente
Este ser puede murir finalmente
Que para el mundo nunca ha existido…

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sobre los deseos sin efecto


Yo sólo quería comprender mi vida
Y sentir que la vida sólo es mia
Y sentir que al hacer el otro día
Yo la tenía de otra forma sentida.

Yo quería con el fuego hacer agua
Y con la luz del Sol hacer estrellas:
Yo quería vivir en una de ellas
Y así sentirme libre de esta mágoa…

Pero no puedo hacer agua com fuego
Ni vivir en una estrella, y luego
No tengo la misma forma de sentir;

¡Yo quería encontrar una razón!
Tener cómo hablar con el corazón,
Preguntar una razón para vivir…

domingo, 11 de maio de 2008

Que trata das ânsias impossíveis


“As Alcióneas aves tristes canto”
Assim cantou o poeta um dia
E eu cuidei que era fantesia
Quando o mesmo sofria entretanto…

Meu coração pena tanto, tanto!...
Cada vez mais perco minha alegria!...
Ignorantemente eu não entendia
O motivo que levava a tal pranto…

Levantam-se os templos da grega Corinto
Acorda em Pompeia um vulcão extinto
Mas meu coração, de arder, já sofria…

Ah, quem me dera não sentir o que sinto!
Ter o meu espírito desfeito, faminto,
P’la Liberdade que achei tido um dia!...